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ENTREVISTA: Por quê Tammy Faye é o papel mais difícil da carreira de Jessica Chastain

Em entrevista ao Los Angeles Times, Jessica falou sobre o processo para se transformar na televangelista Tammy Faye e sua compaixão por ela. Confira a matéria traduzida pelo JCBR:


Para Jessica Chastain, destacar a compaixão de Tammy Faye Bakker foi a chave para “The Eyes of Tammy Faye” – e também toda a maquiagem.

O corpo todo de Jessica Chastain tremia. Ela nunca tinha ficado tão nervosa assim em um set de filmagem – não com o tipo de ansiedade que lhe dava problemas para respirar.

Do que eu estou com tanto medo? O pensamento reverberou pela sua cabeça. Ela tinha interpretado uma super heroína tão poderosa que ela poderia reorganizar a estrutura da matéria. A líder de um jogo de pôquer de alto risco no submundo de Hollywood. Uma analista da CIA que derrubou Osama bin Laden.

Mas essa era Tammy Faye Bakker, a infame Telê evangelista mais lembrada pela maquiagem pesado do que pelo fato de que seu marido, Jim, roubou milhões de seus próprios paroquianos. Para interpreta-la, Chastain colocou muito rímel e lápis de boca, adotou um forte sotaque de Minnesota e cantou músicas sobre amar Jesus.

“Eu estava com medo de que as pessoas fizessem piada de mim,” a atriz lembra sobre seu nervosismo no set. “E vai ter muita coisa para fazer piada se eu falhar porque é muito excêntrico. Eu estou me arriscando muito nisso.”

Mas essa era a realidade que Bakker – que morreu em 2007 após uma longa luta contra um câncer – enfrentava todo dia. Relembrar a ridicularizarão que Bakker sofria – e ignorava – permitiu que Chastain reprimisse seu pânico: “Você tem que se desapegar de seu ego e a vontade de parecer legal. Isso te conecta a ela.”

The Eyes of Tammy Faye“, que será lançado em setembro de 2017, marca a culminação da jornada de quase uma década de Chastain para trazer a história de Bakker para as telas. Em 2012, durante a turnê de divulgação de “Zero Dark Thirty“, ela estava trocando de canal na TV do quarto de hotel quando passou por um documentário sobre Bakker. Chastain tinha visto o filme – dirigido por Randy Barbato e Fenton Bailey em 2000 – antes, mas naquela noite ela se conectou com o filme de uma forma diferente.

Então ela assegurou os direitos do documentário, o qual tinha o mesmo fome do atual filme. Ela ainda iria estabelecer sua própria companhia de produção, Freckle Films, mas encontrou um lar para o projeto na Fox Searchlight. O estúdio vai lançar o filme mês que vem no Toronto International Film Festival, onde Chastain vai receber o Tribute Actor Award do evento.

Ela tem outro filme sendo exibido no festival – “The Forgiven“, um drama co-estrelando Ralph Fiennes – e também vai aparecer na minissérie remake de Scenes From a Marriage de Ingmar Bergman, da HBO, estreando em 12 de setembro.

De sua casa no interior de Nova York, onde somente o canto dos passarinhos interrompeu sua fala, Chastain falou com o Times sobre interpretar Bakker.

Qual foi a sua impressão sobre Tammy Faye?

Eu fui informada a vida toda de que ela era um ser humano horrível – uma palhaça e uma piada. A mídia me ensinou que ela usou as pessoas e roubou seu dinheiro. Eu tinha esse julgamento contra ela, e eu percebi que é muito fascinante como a mídia consegue dar a alguém uma memória coletiva que pode não ser a verdade. Isso não é certo. Eu quis fazer alguma coisa sobre isso para honrá-la.

Uma vez que você assegurou os direitos sobre o documentário, você sempre se viu interpretando ela?

Sim, 100%. Mas também, há tons meus nisso. Eu amo que Tammy Faye não repudia ninguém. Eu amo que ela acredita que todo mundo é merecedor de amor sem julgamentos. Mesmo se alguém pense diferente de mim, eu estou sempre tentando entender de onde vem isso. Eu acho que sempre que há raiva e julgamento ou preconceito ou viés, está vindo de alguma tristeza. Então eu me conectei com ela nisso.

Qual é o seu antecedente religioso?

Eu não sei. Eu não tenho uma origem religiosa. Eu definitivamente sou alguém que acredita que todo mundo é merecedor do amor e você faz para os outros como se fizesse para você. Eu não estou conectada com nenhuma instituição religiosa, mas eu definitivamente sou uma pessoa baseada na fé. Eu acho que trabalhar com Terrence Malick em “A Árvore da Vida” criou isso em mim. Tinha tanta coisa que ele me deu para ler e explorar de diferentes religiões. E essa ideia de que há algo coletivamente maior do que o individual – eu acho que é um pensamento lindo. Eu sou muito interessada em explorar diferentes formas de fé. E eu tenho algumas ressalvas com algumas das coisas que ela pensava.

Como o quê?

Umm – quero dizer, eu não quero falar sobre isso. (Risadas.) Mas eu absolutamente me conecto com essa ideia de que Deus é amor.

Como vocÊ encontrou gravações sobre ela?

Eu fui muito sortuda de assistir tudo que eles (os produtores do documentário) tinham. Mas também, há muito no YouTube. Eu vi muitas versões de Tammy Faye fazendo fudge (um doce cremoso parecido com brownie). Isso é algo que essa garota amava fazer – fazer fudge.

Você experimentou?

Não é vegano [então não]. Definitivamente não é um fudge saudável. Ela colocava cobertura de marshmallow em cima.

O que você aprendeu sobre a relação de Tammy Faue com a maquiagem?

Essa foi uma conversa que nós tivemos, como um grupo, com o estúdio e tudo – até o momento final: Nós precisamos explicar porque ela usa tanta maquiagem? E para mim, não. Não é da conta de ninguém. A faz se sentir bonita. Isso é suficiente. É assim que ela quer se apresentar para o mundo. Por que nós temos que justificar isso? E ao invés de julgar alguém por usar muita calça social – especialmente mulheres – mulheres são julgadas pela nossa aparência, ao contrário dos homens. Nós estamos usando muita maquiagem. Não usamos maquiagem o suficiente. Saias muito curtas. Nosso cabelo é estranho. Sabe o que? Todo mundo precisa calar a boca sobre como uma mulher se apresenta para o mundo.

Qual é a sua relação com a maquiagem?

Eu estou usando um pouco de rímel porque eu tenho cabelos muito claros, então eu gosto de rímel. Eu acho que – talvez similar a ela – o rímel realmente centraliza o rosto. Você vê os olhos. Mas eu amo brincar com maquiagem. Não quando eu estou sozinha em casa, ou até com meu marido. Mas se eu vou sair ou tenho um evento, eu adoro que um maquiador faça um trabalho incrível. Eu sou obcecada por lábios vermelhos. Eu acho que é muito fabuloso.

Como foi a primeira vez que você se viu caracterizada como Tammy?

O primeiro teste que eu fiz foi difícil, pra ser honesta. Quer dizer, nós concertamos isso. Mas eu estava apavorada tipo, “eu não sei como atuar assim.” As pessoas pensam que é mais fácil, mas não é. Você tem que que atingir por meio da maquiagem – você não pode deixar a maquiagem ser a performance. Ela era muito emotiva, e eu tinha medo de não poder ser emotiva com toda essa coisa em mim. Eu vou poder ver as pessoas e me sentir livre? Eu tive que me acostumar com isso. Eu tive que enganar minha mente.

O que você quer dizer?

Tipo, dizer “Ok, vamos fazer uma limonada aqui” – Essa era uma das músicas de Tammy – Eu sou muito sortuda de poder ter essas quatro horas para ouvir a Tammy antes de entrar no set. Eu ainda tenho AirPods cobertos de maquiagem.

Quatro horas? Eram camadas e camadas de maquiagem?

A mais longa foi na verdade sete horas e meia. Eu entrei no set e estava tão apavorada. Eu comecei a ter ondas de calor porque era muito quente e pesada. Eu estava com medo. Era como pegar um voo de longa distância todo dia. Porque se leva sete horas e meia para colocar, vai demorar no mínimo duas horas para tirar tudo. Era preocupante para mim. Eu estava preocupada com a minha circulação. Quando fui ao set naquele primeiro dia que foi sete horas, eu estava meio “eu não tenho mais forças.” E ela deve aparecer com muita energia. Era o look dos anos 90 – no final. Foi o máximo de próteses artísticas que eu já usei. Até o bronzeamento e a base eram muito mais escuros, os cílios eram mais grossos. A maquiagem fica mais pesada conforme ela envelhece.

Como você preveniu que sua pele ficasse ruim?

Com certeza eu tive algum dano permanente na minha pele com isso. Olha, eu como muito puramente e eu cuido muito bem da minha pele e fico fora do sol, e todas essas coisas. Mas era pesado. E quando você está usando isso todo dia o dia inteiro – o peso disso no seu corpo, alarga sua pele; Eu finalmente tirei e estava meio “Eu pareço ter 50 anos!” (Risos.) Estou brincando. Mas tudo bem. É para a minha arte.

Eu sei que você conversou com os filhos de Tammy Faye, Tammy Sue e Jay Bakker. Como eles se sentiram sobre esse filme ser feito?

Eu acho que no começo, eles estavam com medo. Essas crianças cresceram na vida pública. Tammy Faye e Jim Bakker inventaram a transmissão religiosa antes dos reality shows, e Tammy convidou as câmeras para sua casa. Então no Natal, você está as crianças na casa deles. Então estava preocupada com eles. Isso seria traumatizante? Então eu os procurei imediatamente e eu soube que outros projetos não falaram com eles. Eles sempre se sentiram como “isso é a nossa vida, e nós não estamos sendo incluídos.” Então eles ficaram muito felizes. Foi um bom risco que foi corrido. Porque é mais fácil, de certa forma, não falar com eles. Você não precisa ter a ligação “deixe minha família em paz. Não faça isso.”

O que você perguntou a eles sobre Tammy?

Que perfuma sua mãe usava? Para mim, isso é importante – eu queria saber como ela cheirava porque eu nunca pude conhecê-la. Eu disse pra eles, “Qual era a cor favorita da sua mãe?” E Tammy Sue me disse, “minha mãe tinha duas cores favoritas: rosa e oncinha.” Eu perguntei que tipo de música ela ouvia. Ela amava Patsy Cline e Ray Charles. Eu queria saber coisas sensoriais que não estavam na minha pesquisa.

O pai deles, Jim Bakker, ainda está vivo, de volta à TV pregando e promovendo curas para a COVID-19. Você acha que isso complica o lançamento do filme?

Eu não vejo isso como uma complicação. Eu acho que talvez será como se nós estivéssemos contando a história depois que ele saiu da prisão. Olha, eu tenho minhas próprias opiniões sobre tudo. Mas quando você está interpretando que faz coisas complicadas e não legais, é importante vê-lo como um ser humano. Mas eu acho que Andrew Garfield fez um trabalho incrível humanizando o Jim. Ele era muito bom sobre ler o livro que Jim escreveu quando estava na prisão sobre tudo que aconteceu. Na verdade, esse foi o presente que eu dei para o Andrew quando ele entrou para o elenco. Eu comprei uma cópia autografada para ele.

Você acha que Tammy estava envolvida – ou sabia sobre – os crimes do marido?

O que importa para mim é que ela nunca foi julgada. Nunca houve evidências que diziam que ela sabia. O que me importa é que a sociedade e a mídia a considerou culpada baseados em que? Em seu rímel?

Você acha que esse é o papel mais extremo que você já fez?

Ah, com certeza. Sim, sim. É o mais difícil. E também, cantar. O dia que eu fiz isso, eu tuitei algo como “Eu estou vivendo à base de bourbon e Throat Coat (chá para garganta).” Por que eu estava com muito medo. Eu realmente tomei Throat Coast com whiskey quando estava cantando. Eu não sou tão forte assim! Mas eu estava tipo, não tem como eu estar tão nervosa assim, e essa foi a minha receita para conseguir fazer isso.